Caderno de Atividades
Edição Nº139
Janeiro/ Fevereiro de 2001

Educação oral Aprenda a usar o rádio para desenvolver a expressão, estimular a cidadania e elevar a auto-estima da sua turma

Priscila Ramalho

Fotos Maurício Piffer
Alunos da João Camargo gravam no estúdio: participação de todos
Em Silvânia, a classe se reúne para ouvir o programa semanal: "aprendendo a escutar"
Camila vai às ruas de Vargem Grande fazer entrevistas para o programa: notícias de verdade

Falar durante a aula é coisa de aluno indisciplinado? Não na Escola Municipal João Camargo Ribeiro, em Vargem Grande Paulista, na Grande São Paulo. Ao contrário, é tarefa de classe. Há um ano, desde que passaram a usar o rádio nas aulas, os professores vêm descobrindo que microfones, gravadores e bons discursos podem ser tão educativos quanto livros e cadernos.

"A escola sempre foi associada à dobradinha ‘ler e escrever’, mas é principalmente por meio da fala que a criança aprende a expressar suas idéias, defender seus pontos de vista, argumentar e reivindicar", justifica Gracia Lopes Lima, especialista em Educomunicação e responsável pela implantação do projeto. "É muito importante que todo aluno tenha acesso a atividades desse tipo durante sua formação, ainda mais numa cultura como a brasileira, marcada pela oralidade."

E não é só isso. Em nosso país, não existe veículo de comunicação tão popular quanto o rádio, o que faz com que, mesmo nas regiões mais distantes, as crianças tenham familiaridade com o uso dessa linguagem. Por isso, e porque em 2001 completam-se 100 anos da primeira transmissão radiofônica transatlântica, feita pelo italiano Guglielmo Marconi entre Cornwall (na Grã-Bretanha) e Newfoundland (nos Estados Unidos), levar o rádio para a sala de aula é uma ótima pedida.

Uma das muitas vantagens é que ele permite exercitar a linguagem em situações reais, como mostra a rotina de gravações em Vargem Grande Paulista: o tema de cada programa é escolhido pela classe. A garotada parte dos conteúdos trabalhados nas diversas disciplinas para fazer pesquisas e entrevistas e redigir notícias. O material é aproveitado de várias maneiras: poesias, músicas, entrevistas, leituras e até receitas.

Com os roteiros prontos, os estudantes entram no estúdio (montado com a ajuda dos pais) para gravar. Uma vez por semana, um técnico vai à escola ensiná-los a mexer com os aparelhos. "No começo dava um frio na barriga", conta o estudante da 4a série Mayko Alecy Oliveira. Hoje, ele mexe com muita naturalidade no emaranhado de cabos. Como todos os outros colegas, Mayko estranhou quando ouviu sua voz no gravador pela primeira vez. Aos poucos, foi aprendendo a modificá-la, dando entonação e interpretação aos textos. "Agora, nem tremo mais", orgulha-se.

Os programas são editados e transmitidos semanalmente pela rádio comunitária da cidade. "Isso dá uma utilidade imediata ao conteúdo escolar", explica Gracia. "Todos se sentem importantes ao dividir o que aprenderam." E até a postura na sala acaba mudando: meninos e meninas ganham desenvoltura, fazem mais perguntas, apuram o senso crítico e ficam mais auto-confiantes. "É muito bom saber usar as palavras certas para dizer o que eu quero", diz a aluna da 4a série Camila Souza Santos. "Percebo que estou falando cada vez melhor."

Saiba escutar
Para desenvolver a linguagem oral, é importante exercitar também o que Maria José Nobrega, consultora dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa, chama de audição compreensiva. "Cabe a você, professor, ensinar a acompanhar o raciocínio de quem fala e se posicionar criticamente."

Um bom exemplo disso vem de Silvânia, em Goiás. Há um ano e meio, uma parceria entre as secretarias municipal e estadual de Educação e a emissora local, a Rádio Rio Vermelho, deu origem ao Roda Pião, cuja programação é toda voltada aos alunos de 1a a 4a série das 22 escolas locais. Ele vai ao ar duas vezes por semana, sempre com um tema diferente ligado à realidade das crianças e à construção da cidadania.

Os professores recebem antecipadamente um roteiro, junto com algumas sugestões de como abordar cada assunto na sala de aula. Na hora em que o Roda Pião vai ao ar, todas as turmas sentam-se em roda para ouvir com atenção. "Tão importante quanto falar bem é saber ouvir, prestar atenção, compreender, interpretar", explica a pedagoga Nevione Cotrim, uma das responsáveis pelo trabalho.

O programa abre um leque de atividades que ajudam a criançada a desenvolver a oralidade: debates, júri simulado, entrevistas, recitais e campanhas nas ruas. Segundo o coordenador do projeto, Geraldo de Oliveira Costa, existe uma forte relação entre oralidade e cidadania. "Ser cidadão é poder tomar a palavra expressando-se por meio dela." O rádio amplia esse alcance. E a escola faz com que o veículo de comunicação mais popular do país se transforme em um aliado muito divertido para o professor.

Tagarelice didática
O rádio está presente nos quatro cantos do país. A seguir, dez motivos para você levá-lo para a escola:

1. O rádio desenvolve a expressão;

2. ajuda as crianças a perder a inibição para falar em público;

3. exercita o raciocínio lógico;

4. leva o aluno a descobrir — e mostrar aos outros — seus talentos;

5. eleva a auto-estima;

6. permite conhecer e utilizar novas tecnologias;

7. estimula a imaginação e a criatividade;

8. dá um sentido concreto ao conhecimento escolar;

9. promove a cidadania e favorece a interdisciplinaridade.

10. favorece a interdisciplinaridade.

Quer saber mais?

EMEF João Camargo Ribeiro,
Av. dos
Industriais, 720, Vargem Grande Paulista,
SP, CEP 06730-000,
tel. (0_ _11) 4158-2195

Professora Gracia Lopes Lima,
Av. Corifeu de Azevedo Marques,
5534,
São Paulo, SP,
CEP 05340-002, tel. (0_ _11) 3714-8158,
e-mail: gens@pratica.com.br

Programa Roda Pião,
Praça Rui Barbosa,
471, Silvânia, GO,
CEP 75180-000, tel. (0_ _62) 332-1155,
e-mail: radiorv@zaz.com.br

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